cinzas

Sentada naquela poltrona surrada, ela observava a rua. Um cigarro pendia em seus lábios, recentemente aceso. Maldito hábito de tragar aquele vício logo depois do despertar. Lá fora, a chuva caía de forma silenciosa como se não quisesse ser percebida, mas as gotículas na janela impediam tal feito.
A todo o momento se remexia, se sentia desconfortável. Desconfortável do corpo. Desconfortável da mente.
Há dias seus problemas atormentavam seus sonos como um monstro embaixo da cama atormenta uma criança.
Nas primeiras tragadas daquele cigarro matinal, sentiu a fumaça de seu companheiro adentrar seu corpo e, alguns segundos depois, soltou pelo nariz. Enquanto tragava, via o cigarro diminuir.
Bateu suas cinzas em um copo em sua mão.
Gostaria que seus problemas fossem como cigarros: basta tragar, deixar queimar, bater e eles se vão, assim como as cinzas.
Olhou diretamente para a rua através daquela janela respingada. Um mendigo sentado estendia as mãos em busca de mais que pingos de chuvas. Uma moeda, talvez. Uma mulher e duas crianças corriam tentando se proteger da água que caía enquanto alcançavam o ponto do ônibus que estava prestes a passar. Carros iam e vinham naquela avenida.
Tragou. Queimou. Bateu.
As cinzas caíram.
Olhou novamente para a rua, observando todas aquelas pessoas vivendo, trabalhando, correndo.
E ela vendo a vida passar de dentro do seu quarto.
Quais eram os seus problemas mesmo? Pareciam tão fúteis ali de cima, enquanto as pessoas buscavam seus objetivos e ela não fazia nada além de fumar aquele cigarro em plena terça-feira. Quando batesse a fome, almoçaria qualquer coisa que encontrasse na geladeira. E depois? Quem sabe? Seu tédio profundo diário guardava muitas surpresas para ela. Como se a cada dia seu tédio, já tão intimo, fosse uma novidade sem novidades. Aquele sentimento tão acoplado ao seu ser poderia vir em forma de sono hoje, em forma de fome amanhã. Tem como saber? Ela não sabia.
Tragou. Queimou. Bateu. Por mais três vezes.
Já com o olhar perdido e sem focar em nada naquela avenida tão conhecida, sentiu seu companheiro fiel a abandonar.
Uma pena. O cigarro acabou. O cigarro foi tragado. O cigarro queimou. Virou cinzas. Cinzas batidas dentro de um copo. Pff. Acabou.
Uma pena que seus problemas não fossem como o cigarro.

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